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o «ESPAÇO» onde nem tudo o que parece é... música para os ouvidos !?

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A imagem de Portugal no mundo: P. Abrunhosa na revista Latitudes ...............................(aussi en fr)

24.02.10 | PortoMaravilha

 


 L'image du Portugal dans le monde : Pedro Abrunhosa dans la revue Latitudes

 

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 Source / fonte: Latitudes , nº 36 , out 2009 , pp . 83 , 84 , 85 , 86

 

Louvo e agradeço a gentileza da revista "Latitudes" que autorizou a tradução desta entrevista levada a cabo por Dominique Stoenesco e Odette Branco.

Nuno

 


 

Latitudes : Em nota introdutória a esta entrevista, poderiamos começar pelo seu percurso pessoal. E nomeadamente pelo Porto, a cidade que lhe é tão querida.

 

Pedro Abrunhosa : Em primeiro lugar Porto sigifica "port", um porto de acolho, aquele ao qual regresso sempre. Nasci no Porto e vivo no Porto, mas estou sempre em "transit" porque viajo muito, sobretudo para Nova Iorque por razões totalmente profissionais e é aì que se encontra a indústria musical do disco. Mas o Porto é sempre o sítio a onde regresso sempre, é a minha casa, aqui sinto-me bem. O Porto é a cidade do granito, dos poetas, é uma cidade de cultura com profundas raízes históricas. O nome "Portugal" nasceu aqui no Porto, entre Porto e Gaia que está na outra margem do rio Douro. Ele vem da junção destes dois lugares, Porto e Gaia que no tempo dos Romanos se dizia Calem, daí Portocalem, depois Portugal. Tudo começou aqui. Para mim, há asseguradamente indicadores sociológicos que fazem um pouco a diferença entre o Norte e o Sul : Somos um país feito de diversidades culturais, mas também de unidade cuja língua é o factor essencial. Por outro lado, esta língua deu nascença a um enorme espaço, chamado Lusofonia, que permite hoje em dia o contacto entre povos geograficamente muito afastados. Isso representa sem dúvida uma mais valia.

 

Latitudes : Num documentário mostrado na televisão Francesa, há já alguns meses , no programa "Des racines et des Ailes " , dizia que o Porto é uma cidade de inovação e de criação artistica em várias áreas , como a foto , a música , o cinema e a literatura.

 

P. A . : Sim, o Porto é uma cidade de cultura. Creio que uma cidade , um país , mesmo uma pessoa são antes identificados através da cultura do que da política. Somos o que fazemos , o que dizemos, o que sentimos e o Porto é uma cidade muito activa , muito criativa . Podemos citar a escola de Arquitectura, reputada, Manoel de Oliveira, um dos maiores cineastas, originário do Porto, Eugénio de Andrade que embora não sendo originário de aqui ,sempre aqui viveu toda a sua vida. Ou ainda a Universidade do Porto que acolhe inúmeros estudantes vindos do espaço lusófono. Em seguida a Casa da Música que é também um ponto de encontro e de modernidade. Não se pode ser mais ousado que a Casa da Música. Citemos ainda o museu Serralves , o museu mais visitado em Portugal , e o Teatro de São João, também muito frequentado.

 

Latitudes : Falemos agora do seu itinerário musical. Se hoje é o que é , autor duma notável criação musical, é graças ao seu trabalho pessoal e ao seu talento , mas também porque foi formado numa boa escola , por exemplo Coleman ou Bily Hart !

 

P.A . : Sim, é verdade. Frequentei o Conservatório de Música aqui no Porto e fiz estudos em Budapeste , passei por todas as etapas par ser contra-baixo e especializei-me em Wanger. O meu domínio dizia respeito à direcção de orquestra e à composição. Após isso, vamos dizer que o Jazz chegou naturalmente e, depois, do Jazz à Pop só havia um pequeno passo. The Duke tinha uma citação interessante : Dizia que havia dois tipos de música : A boa e a má. O meu percurso musical construi-se também em simbiose com a literatura. As palavras são muito fortes.

 

 

Latitudes : Conhecemos as suas fontes principais de inspiração : O amor, a ausência , a separação... Com efeito, dá uma enorme importância ao texto e à sua escrita. Além disso, num site Francês que lhe é consagrado e que é animado por uma jovem de origem Portuguesa , Fátima Leitão, esta presta-lhe uma grande homenagem a propósito das suas canções e dos seus textos : " É o mais belo encontro que tive com a língua Portuguesa , que me abriu a porta dos seus poetas e me deu vontade de ir ao seu encontro... "

 

P. A. : A língua Portuguesa é uma língua muito bela que se presta maravilhosamente bem para a escrita de canções. Os Brasileiros, por exemplo, fazem-no muito bem. A canção seduz-me imensamente. É por isso que tomo todo o meu teu tempo para escrever os meus textos. Digamos que a metade do trabalho é a música e, após, começo a dar corpo às palavras e que, por vezes, levo um ano para acabar o trabalho musical em curso. A canção , sobretudo aquela que conhecemos desde a canção Francesa ( Gainsbourg, Reggiani, Moustaki , Brel , que é Belga mas que canta em Francês ) , é na maior parte das vezes uma estória que ocorre em 4 minutos. Para mim, isso representa um formidável mistério ! Também é o caso para Bob Dylan . Este é capaz de contar uma estória completa, com um princípio e um epílogo , com metáforas, etc... , no tempo duma canção.

 

Latitudes : Há pouco, entrando aqui, atrevi-me a comparar o seu trabalho com o do cantor e compositor Brasileiro Lenine. Porque também ele dá muita importância ao texto. Penso que trabalharam juntos.

 

P. A. : Convidei Lenine para tocar comigo, há seis anos , para gravar algumas das minhas canções. Fizemos um álbum no Rio de Janeiro e quando saiu foi um sucesso enorme. Subitamente, as minhas canções com a voz de Lenine agradaram imenso . Fizemos vários espectáculos juntos. Por outro lado, já tinha feito o mesmo tipo de trabalho com Caetano Veloso e, neste momento, faço-o com Maria Bethânia. Vou publicar um álbum no Brasil com 16 canções minhas , cantadas por vários artistas Brasileiros, Lenine e outros cantores como Arnaldo Antunes, Milton Nascimento , Caetano Veloso , Chico Buarque, etc.  Com Lenine temos verdadeiramente uma história em comum. Quando nos encontramos em cena, banhamos na felicidade e também na angústia porque há sempre aspectos sociais que evocamos nas nossas canções. Com Lenine em concerto é o máximo : É um dos mais importantes músicos contemporaneos. Penso que Caetano Veloso transmitiu-lhe o testemunho, podemos dizer que é o porta-voz da cultura Brasileira contemporanea.

 


 

Latitudes : Em Julho 2007 veio a França para apresentar o seu álbum "Luz" . Tem, várias vezes, palavras muito simpáticas para com a França . Donde vem o seu amor pela França e pela cultura Francesa ? Diz mesmo que se considera como fazendo parte da francofonia.

 

P. A. : Li Victor Hugo com a idade de 16 anos, era o momento da epifania ! Abriu-me os olhos para o futuro. Devorei a literatura Francesa clássica, de Balzac a Flaubert e de Cocteau a Baudelaire. E não esqueço também o cinema que tem uma importancia enorme, citemos Truffaut , Godard ... Tudo isso influenciou a minha formação porque pertenço a uma geração, a última acho, que não só em Portugal mas também na Europa em geral, teve uma grande influência cultural Francesa e isso deu-me uma mais-valia. Todavia, agora com a globalização, é a influência anglo-saxónica que domina. Não é forçosamente um mal, mas há inconvenientes : As crianças só sonham com play-stations e cinema americano, elas perdem a noção que o cinema pode ser filmes, histórias e não unicamente bombas que arrebentam... Portanto, pertenço a essa geração muito influenciada pela francofonia , vivi em França alguns meses para trabalhar como músico de jazz no início, depois regressei várias vezes para concertos, de Strasbourg a Marseille. Também estudei em Lausanne, na Suiça. Mas há uma outra razão mais sentimental : Tinha uma amiga Francesa , refugiada de guerra que tinha 82 anos e dum carinho infinito. Criou-nos, eu e os dois meus irmãos, e isso explica porque domino bastante bem o Francês.

 

 

Latitudes : Diz também que, infelizmente, a língua Portuguesa pode ser um obstáculo para poder penetrar o mercado Francês. Ainda é o caso hoje ?

 

P.A. : Toquei muito em França e creio que estamos a fazer um bom percurso porque fazemos mexer um pouco as coisas. Primeiro, trabalhando em Nova Iorque onde fiz adaptações para o mercado americano. Para mim, é o mercado de Nova Iorque que me interessa. Já fiz o Brasil, a Argentina, o Chili , as minhas canções também funcionam muito bem no Japão, na Coreia , já toquei em Hong-Kong , na China , mas não me consegui impor verdadeiramente em França porque é em português e isso é talvez uma barreira. Mas as coisas mexem. O concerto que dei no "Zénith" diante de 7000 pessoas foi formidável. Tinha feito uma conferência na "Fnac des Halles" nos dias precedentes e dirigia-me, sobretudo, à terceira geração dos jovens de origem Portuguesa que estavam felizes por verem um músico que vinha do Rock e que lhes dava um sopro de renascimento, uma outra visão da cultura Portuguesa em cena. Esses jovens vieram com os seus amigos e estavam orgulhosos por serem Portugueses porque não se reconhecem nessa imagem fora de moda da antiga cultura que Portugal exporta ainda hoje. É esse o problema : É preciso mudar imperativamente a  imagem de Portugal no mundo. Todavia, essa imagem ultrapassada é também culpa dos próprios Portugueses. Perdeu-se demasiado tempo a dar uma imagem do Portugal da saudade e das mulheres vestidas de preto. O mercado anglo-saxónico domina tudo e contra esse mercado é preciso apostar na qualidade.

 

Latitudes : Na literatura temos esse mesmo problema da língua. Certos editores Franceses têm a coragem de publicar autores lusófonos traduzidos em Francês mas é muito insuficiente.

 

P.A . : Aí o problema é absolutamente político. A França investiu muito na Francofonia com o Instituto Francês que está presente no mundo inteiro, a Inglaterra com o British Council , a Espanha com o Instituto Cervantes. Compreenderam que para ganhar na área da economia é preciso primeiro conseguir na área da cultura. Ora a cultura é a língua, mas Portugal não investe na sua própria língua. Temos um património literário lusófono enorme com autores como Mia Couto ( Moçambique ) , Eduardo Agualusa, Luandino Vieira ( Angola ) , Mário Claúdio, Agustina Bessa-Luís, A. Lobo Antunes , José Saramago ( Portugal ) , etc... temos uma grande dificuldade em exportar a nossa cultura e não podemos fazê-lo sós, de maneira isolada. Ora , em França, precisamente, em qualquer cidade em que dava concertos , Nantes , Lyon, etc . , excepto Bordeaux onde o cônsul veio-me ver , não senti qualquer apoio. É uma questão de prioridade política ; Se fosse uma reunião política, mesmo da 3ª divisão , penso que todos os embaixadores estariam presentes , para figurarem na foto. Mas um músico é só um músico e nada mais.

 

Latitudes : Define-se com um cantor comprometido ou de intervenção ? Deve o artista desempenhar um papel social ou político no seio da sociedade onde vive ? Estou a pensar em Chico Buarque no Brasil , durante a ditadura militar.

 

P. A. : Não forçosamente : Podemos evocar também Bob Dylan , Lou Reed . Mas o que eu faço é antes de tudo rock  e o rock deve ser incómodo e aí penso de novo em Dylan que inventou o rock e que continua presente , ou em Lou Reed com as suas canções que falam das prostitutas de Nova Iorque e dos seus bairros mais sórdidos. Ele faz parte dos maiores músicos de rock de todos os tempos. Mas para voltar à sua pergunta : Não sou um cantor de variedades, sou antes alguém que se apoia nas palavras para brincar com a realidade. Não escondo a realidade, mas ao mesmo tempo não creio que seja o papel da música de mudar o mundo ; Acredito no empenho de todos para mudar o mundo. Vê-mo-lo com o fenómeno Obama : É a partilha do sonho, fazer sonhar as gentes. Obama pertence à geração rock e é esta geração que ele conquistou , uma geração que o ajudou a ganhar as eleições. Eis o próximo desafio da Europa : Encontrar Obamas que ouçam rock e que não tenham medo das palavras duras.

 

Latitudes : Assim, Obama representa para si uma mudança importante , pelo menos simbolicamente. mas por lado tem um juízo bastante severo sobre a sociedade Americana.

 

P.A. : Com certeza, há duas Américas : Uma reacionária, de direita , fechada sobre si própria, conservadora , católica ou protestante , profundamente religiosa , puritana ; Outra cosmopolita , mais aberta. Resumindo é um país esquizofrénico ...

 

 

 Latitudes : Será que estamos na boa direcção actualmente ?

 

P. A. : O problema está aí . Começamos mal, começamos outra vez pela economia e o conceito de Europa que estamos a desenvolver é ,mais ou menos, o mesmo que o do após guerra mundial quando era preciso fazer frente à presença soviética. Na altura era pausível. Mas agora a ideia seria mais a de combater a invasão cultural dos Estados Unidos e a homogeneização anglo-saxónica. As crianças de 12 ou 13 anos só conhecem esta ...

 

Latitudes : Criticou severamente os fracos meios que Portugal dá à sua cultura. Cita o número de 0,4 % do seu orçamento.

 

P. A. : É uma vergonha ! Para os políticos a cultura é qualquer coisa que vem depois. Primeiro tem a preocupação de privatizar as escolas , os hospitais , etc. Nós, cantores , poetas , somos vistos como trovadores que animam um pouco a festa. Mas Não ! Não estamos aqui para isso. Somos os verdadeiros embaixadores de Portugal , somos também o património cultural deste país e 0,4 % é uma vergonha. A fraca visão dos homens políticos deixa-me perplexo e até me mete medo. Ignorar a cultura é mergulhar o país na miséria. Com efeito , é um erro pensar que a única  prioridade para um pobre é ter meias e umas calças. Mas se não começamos a lutar contra a ignorância , esse pobre ficará sempre pobre mesmo se lhe damos meias. A cultura faz parte dos alimentos da alma, como a água e a necessidade de comer para o corpo.

 

Latitudes : Em que trabalha neste momento e quais são os seus projectos ?

 

P. A. : Tenho um grande projecto orientado para o Brasil onde estamos a realizar um álbum . Já gravámos 7 músicas e faltam 9 . Há também Nova Iorque onde vivo neste momento e onde trabalho com o productor de Leonard Cohen para realizar uma adaptação do disc à realidade nova-iorquina. Por fim , há também o meu próximo álbum que deve sair em Portugal . Sem esquecer os concertos que continuam ...

 Porto, 19 de Junho de 2009

Fonte : Latitudes , nº 36 , out 2009 , pp . 83 , 84 , 85 , 86

 

Nuno

 

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